URSOS PARDOS E POEMAS DUVIDOSOS
- Eudes Pina
- 6 de jan.
- 3 min de leitura

Estou há dez minutos olhando fixamente para uma tela na parede do escritório e a descrição da imagem (ou imagens) é completamente nonsense: resumindo, no alto, um casal de crianças representadas sobre um painel de cerâmica de andorinhas de Athos Bulcão, sincronizam um cuspe esticado enquanto um garoto, à esquerda, escala um portal se apoiando nos braços e pernas; na parte inferior, uma garota usando branco faz mira com um bodoque e, um pouco à direita da tela, uma mulher com os seios à mostra, gargalha segurando uma garrafa de cerveja com a mão direita, usando short tipo samba-canção amarelo com bolas vermelhas, chinelas de tira no braço e, com a mão esquerda, abraça um urso pardo de pé; o fundo é bege com várias pinceladas acidentais e algumas pelotas de tinta à óleo. A autora é uma premiada artista de Brasília, Camila Soato. Sua estética mais confunde do que explica; a “sujeira” e os “ruídos” da tela remetem tanto a um lugar extremamente doméstico, quanto te arremessam para o sonho mais estranho que jamais teve. Para mim, tudo é reconfortante exatamente porque é imperfeito e sofisticado ao mesmo tempo. Ela mesma define – mas não reduz – seu trabalho como uma estética da fuleiragem. Desvio o olhar e só me ocorre o quanto podemos divagar em pensamentos. Essa – e outras – pintura (s) só ilustra (m) a construção da imaginação.
Estamos muito distraídos e, consequentemente, pouco concentrados. Talvez seja consequência do excesso de fragmentos de existência: imagens, ideias, textos, tudo fragmentado para caber num átimo de cognição e ser deixado pra trás, imediatamente, em seguida. Os olhos mal cumprem seu papel de definir a imagem e o cérebro já nos compele a procurar a próxima. O que foi deixado pra trás não importa, é passado, mesmo que esteja há um zeptosegundo da sua percepção. Enquanto isso, um ou outro registro mental absolutamente necessário, será igualmente descartável.
Eis que me peguei pensando na sorte; tanto pensei que me distraí com o acaso.
Parei pra pensar no mundo, no que fazemos nele e dele, recuei e despensei, se é que é possível apagar um pensamento já pensado. Talvez o destino do mundo não seja suficientemente interessante pra que dediquemos tempo em elucubrações. Talvez eu possa tentar outro tema: a felicidade! Esse sim é um baita de um tema pra se dedicar tempo elaborando um raciocínio. Acontece que me enviesou de novo o pensamento sobre sorte e, já sabem: me distraí com o acaso. O acaso, de tanto se impor em pensamentos, demandou organização. Tentei encaixá-lo na caixinha da ilusão e logo percebi o erro. Segui com aquilo a tiracolo e foi ficando pesado; apenas larguei ali, na senda que liga minha imaginação ao meu tímpano esquerdo. Percebi, enquanto isso, que haviam passado pela mente um tanto de sortilégios e suposições; uma reflexão brevíssima e a constatação da necessidade de ir adiante. Mas o que é esse adiante que nunca chega? Vai-se como?
Me bate um súbito interesse pelos pensamentos lógicos e no quão resolutivos eles podem ser. Saio, num piscar, da angústia ao alívio. A distração pode ser tóxica qual o tédio do ócio. Opa, mas conheço uma receita para isso: a poesia. Se fosse aviada, prescreveria preenchimento, provocação, prazer. Mas, sabemos, em alguns o efeito é outro: vazio, apatia e amargor. Me ocorreu um poema semiromântico de minha lavra:
Tem o sim
Mas tem o não; tem o talvez
Tem o instante e tem o sempre
Tem também o amor.
Mas será que talvez tem o sempre no instante do não dizer sim ao amor?
Sobre o poema, muito obrigado. E mil desculpas.
E sobre o urso da tela, de pé ali, se deixando abraçar por aquela garota seminua? Era sobre o acaso? Sobre a sorte? Sobre o tédio? Sobre a distração? Sobre o tempo ido? Sobre o hoje? Sobre coisa alguma? Sim, porque um urso pode ser apenas um urso sem propósito, mesmo que esteja sendo abraçado numa tela cheia de outras informações visuais.
Tenho que seguir com a dúvida, apesar da acuidade visual e, principalmente, da poesia.
SANDRO TÔRRES
